Há sempre um lugar com uma luz intermitente, apaga, acende, apaga, acende o desejo em ter-te nas minhas mãos, espalhando o calor pelo teu corpo por onde te escorre dos ombros o suor que goteja como lágrimas caídas da face de uma criança em pequenas deflagrações. Há sempre um lugar onde me recolho, onde o tempo me toma de assalto por entre paredes que vigiam o gonzo das portas; o cheiro humedecido das horas batidas por um relógio pendular, anunciando o tempo morto, se não vens. O canto, é meu refúgio de onde observo as sombras geométricas esbatidas no tecto como figuras monstruosas que me cospem sangue de esmalte vermelho (sim, de esmalte vermelho-sangue), tom do
batom que usas nos lábios. E ajoelho-me erguendo os braços no ar pedindo aos anjos do pagode ou a quem quer que me conceda o alívio desta penosa afronta que revejo ao reabrir os olhos fechados de medo por esse crescimento dos monstros, com medo de os enfrentar. Não sei se saio do meu corpo, não sei se me vejo rebolar com contracções paralelas ao meu corpo, porque não sei se o meu corpo saiu do meu próprio corpo, ou se é apenas paranóia, ou se não existe paranóia, ou se tenho contracções intrínsecas – remetendo à ansiedade exorbitante de te ver chegar de onde não vens.
Há esmalte vermelho no chão, é vermelho, é vermelho, seco, seco como sangue sem oxigenação que agora me asfixia, desfaleço. O corpo torna-se gelado, macilento, lívido como a lividez de um cadáver deitado numa caixa feita por homens que afeiçoam madeira dando-lhe o nome de caixão que recupera a esperança do ser humano na ida para um lugar melhor do que aquele em que vivemos, eu, não creio, não acredito que nessa aniquilação total dos sentidos, iremos para um local divino, porque até em vida não somos nada, nada. E não vens.
Se viesses agora, não te conseguiria dizer aquilo que sinto, porque nem a mim me sinto desfalecido neste soalho flutuante que difunde esta fosca nitidez que se acentua no tempo da tua chegada. O telefone não toca, não me chama como as vozes chamam à espera que as outras vozes respondam: sim, sou eu,
- lembras-te de mim, não?
- não!!!
- como pudeste esquecer-te de mim em tão curto espaço de tempo?
- como?!?
- sim, daquela noite em que de frente para a lareira o lume aquecia os copos de vinho que nos aquecia a nós onde nós nos aquecíamos sem vacilo nem preconceitos, lembras-te?
- como se chama? Com quem deseja falar?
- ora, não brinques comigo, Artur
- Artur!?! Não me chamo Artur! Está com toda a certeza equivocada
- peço desculpa, foi engano
(o telefone não toca, ninguém o faz tocar),
o mundo torna-se irregular, torna-se frágil, insípido, não há pássaros nem cores nem nada. Só monstros esbatidos no tecto, só as paredes humedecidas pelo tempo, um rádio que não toca, o telefone, o
tic-
tac do relógio pendular que não ouço deitado neste soalho, e os
ácaros, os
ácaros que te poderiam ir buscar, mas não vão. E tu não vens.
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Luís Mendes